[ Lista das músicas do CD ]



Meus primeiros passos e compassos

Primeiras gravações de músicas de Tom Jobim

 

 

Luiz Roberto Oliveira



Saiu o CD que estava faltando. As primeiras gravações de músicas do jovem Jobim estão neste disco, em suas versões originais, com todo o charme da época. Os fãs (com ou sem carteirinha) de Tom poderão acompanhar o nascimento do compositor, do arranjador e do pianista - já mostrando o toque leve e essencial que o distinguiria entre seus pares.

O cantor Mauricy Moura, com o vozeirão romântico da moda, inaugurou no disco a carreira de Tom, com "Incerteza", em 1953. Aos 26 anos do nosso maestro, em parceria com o também pianista Newton Mendonça, esta gravação tem, acima de tudo, importância histórica. Lirio Panicali, um arranjador já conhecido nesse tempo, prepara a entrada de Mauricy com um meloso solo de oboé acompanhado por cordas.

Entre letra e música, difìcilmente saberemos quem fez o quê. Nas parcerias com Newton Mendonça as atribuições de cada um nunca ficaram claras - e o próprio Tom, mais tarde, muitas vezes perguntado, pouco disse para satisfazer os curiosos. O mistério perdura inclusive em outras músicas como "Desafinado" - quem empunhava a Rolleyflex, e quem se considerava o desafinado da dupla mais que perfeita. Só nos resta supor que um fez um pouco aqui, o outro deu um palpite ali, e assim terá sido.

O Tom Jobim letrista também estreiou em 1953 com "Pensando em você", mais um samba-canção, desta vez cantado por Ernani Filho: "de manhã cedo, quando acordo eu penso em você...". Lirio Panicali mantém sua posição como arranjador.

Um documento indispensável para que se compreenda melhor a revolução que alguns anos mais tarde chegaria com o nome discutível de bossa nova, é a gravação de Dick Farney de "Outra vez", letra e música de Tom. Concebido num estilo próprio do seu tempo, lento e romântico, este samba-canção mais tarde vestiu roupa nova.
Transformado pela força do violão de João Gilberto, acompanhando Elizete Cardoso no LP "Canção do amor demais", e numa gravação do próprio João, "Outra vez" virou samba, ganhando um andamento mais rápido, agilidade e balanço.

Teria sido Luiz Bonfá o primeiro a atrair a atenção de Tom para a ecologia? "A chuva caiu", cantada por Angela Maria com todos os "la-ri-ri-ris" de sua voz lindíssima, bem pode ter sido a precursora de outra toada da dupla: "Correnteza", que Tom gravou depois em versão definitiva - sem nos esquecermos de Djavan, que também cantou e arranjou bonito.

As outras músicas, melhor você ouvir - tem a Sinfonia do Rio de Janeiro, tem algumas do Orfeu da Conceição, incluindo "Se todos fossem iguais a você", cantada pela primeira vez por Roberto Paiva, voz de sambista. Tem o Lucio Alves e o Dick Farney disputando "Tereza da Praia". E outras mais.

E tem, finalmente, e não podia deixar de ter, a Sylvinha Telles. Que tinha intuição, e já sabia de tudo, e já sabia quem iria ser Antonio Carlos Jobim.
Sylvinha cantou o samba-canção "Foi a noite" (mais uma parceria com Newton Mendonça), um momento inesquecível de transição da música brasileira, acompanhada pelo grupo de músicos que, na contracapa do long-play "Carícia", foi batizado como "Antonio Carlos Jobim e sua Orquestra". É pouco provável que Tom tivesse sua própria orquestra. Títulos assim eram dados não só para grupos estáveis, mas também para formações de músicos constituídas apenas para uma determinada ocasião. Tom com certeza escreveu o arranjo (e provàvelmente todos os do long-play) e deve ter regido a orquestra durante a gravação. Ou teria tocado piano, inclusive no solo depois que Sylvia canta a música pela primeira vez? Difícil afirmar. Parece muito o piano de Tom, a sonoridade leve e líquida que tirava dos acordes, à exceção de um arpejo desses puxados com o polegar do agudo para o grave, logo no início do solo - recurso fácil e esbanjado, que nos faz devolver Tom à posição de regente da orquestra, olhando feio para o pianista ao ouvir o malabarismo.

E este baú com tantas jóias por onde esteve esse tempo todo? Leon Barg, responsável pelo selo Revivendo, que lançou o CD, nos disse hoje que sempre colecionou discos de música brasileira - 78 rotações, compactos, long-plays, tudo. Difícil foi consertar, no computador, defeitos não só das gravações originais ("principalmente as da gravadora Sinter, que usava uma matéria prima muito ruim"), como também os ruídos e estalos causados pelo uso e pelo tempo.

E se você ia perguntar, eu já respondo: não, não tem João.

S. Paulo, 7.fevereiro.97

 
CD: Antonio Carlos Jobim - meus primeiros passos e compassos
Publicado por: Revivendo Curitiba, Paraná, Brasil

 

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