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Por tôda minha vida

Texto da contracapa
Antonio Carlos Jobim

A poesia

     Vinícius de Moraes é um grande poeta. No entanto isto não é condição para se fazer uma bela letra. Uma palavra, alem do sentido verbal, tem uma sonoridade e um ritmo. Só um indivíduo como Vinícius, que conhece a música da palavra, que poderia ter sido um músico profissional, poderia ter feito as letras que fêz.

     Vinícius é o poeta que sabe comungar com um crioulo de morro e bater um samba com a faca na garrafa. Educado em Oxford, diplomata em Paris, triste em Strasburgo, escrevendo "Pátria Minha" em Los Angeles, falando muitas linguas e sem deixar que se perceba isto, é sempre o homem que vê o lado humano das coisas.

     A versatilidade do meu amigo é espantosa: - tanto compõe um samba de morro (Eu e o meu amor) como uma valsa romântica e sinfônica (Eurídice) ou ainda uma "Serenata do Adeus"; tanto escreve um Sonêto (de Fidelidade ou de Separação) como uma "História Passional, Hollywood, California" - Faz cinema, faz teatro e escreve crônicas deliciosas. Tem o sentimento nato da forma que transcende o que possa ser ou foi aprendido.

     Estas são umas poucas facetas do poliedro cujo número de faces tende para infinito e que se chama Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes

O Canto

     Assim como o pássaro é aparelhado para o vôo e instintivamente conhece a velocidade do vento, a disponibilidade dos espaços e o perigo dos obstáculos, assim canta Lenita Bruno: - às vezes num vôo alto onde a orquestra lembra o mosaico das casas vistas de avião, às vezes varando quintais e arvoredos num momento.

     Assim, sôbre a trama da orquestra surge o canto; que é, em última análise, quem vai contar a verdadeira história dêste L.P.

     Lenita Bruno aqui se apresenta em toda a doçura e plenitude de sua voz, o que empresta a esta gravação, creio, uma categoria inédita no Brasil. Sentimo-nos honrados com sua presença e agradecemos a simpatia e a simplicidade com que acedeu ao nosso pedido: ser intérprete destas canções.

A Produção

     Êste L.P. nunca teria existido não fosse o desassombro de Irineu Garcia, que tem a coragem de lançar, nesta altura dos acontecimentos, um disco como êste em que só as despesas da orquestra foram astronômicas.

Rio, abril de 1959

Antonio Carlos Jobim

P.S. A quem não tenho permissão para citar nesta contracapa a minha gratidão...

 

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