Stravinsky e a Profana Trindade

Luiz Roberto Oliveira
setembro / outubro.96

O mesmo fascínio que me fazia procurar por ele, tentar conhecer de perto quem fazia aquelas músicas todas e tocava o piano daquele jeito, também me deixava desajeitado e quase mudo.
Quando eu me encontrava com o Tom, eu era mais o espectador do que o interlocutor. E eu queria aprender todas aquelas harmonias, os acordes no piano, e não entendia muito porque ele preferia conversar sobre outras coisas.

Eu via o Tom como se nele habitassem a um só tempo a Esfinge, a Marilyn Monroe e o Cristo do Corcovado. Esta trindade, profana e telúrica, me tirava a naturalidade, e, como um vidro esfumaçado, não me deixava distinguir com muita clareza o Tom, ele mesmo.
Houve um certo tempo em que eu passei a procurar menos por ele. Em parte porque, ocupado com meu trabalho de produtor musical em São Paulo, as oportunidades de encontrá-lo eram mais escassas; e mais, me ocorria muito a imagem do bichinho voando em círculos em torno da luz, que o atrai e onde ele acaba sendo consumido.

Um dia, durante um desses papos que ele sabia puxar bem melhor do que eu, falou do Stravinsky.
- Você sabe, Luiz, houve uma época em que eu passei uns tempos em Nova York, trabalhando por lá. Na mesma rua do hotel em que eu estava, do lado oposto, quase em frente, morava lá o Stravinsky. É, o Stravinsky, ali do outro lado, across the street. De vez em quando eu estava por ali, na Lexington Avenue, e via o Stravinsky andando pela rua. Eu até sabia qual era o prédio em que ele morava.
- Puxa, Tom, e aí, você via sempre ele na rua ?
- Pois é, volta e meia, eu estava chegando ou saindo do hotel, ou num bar ali ao lado, e lá estava, andando pela outra calçada, o Stravinsky, com aquele casaco e aquele chapéu, você sabe. Mas eu nunca cheguei a falar com ele.
- Mas como, era só atravessar a rua... Você nunca teve vontade de conversar com ele ?
- Tive sim. Mas ele, ali, o Stravinsky, do outro lado da rua... E se ele estivesse pensando em alguma música, se estivesse compondo alguma coisa ? Eu achava que não devia interromper o maestro, desviá-lo de seus pensamentos. E lá se ia ele...
- Mas Tom, era o Stravinsky, você devia ter falado com ele !

Tom ficou quieto um pouco, o olhar perdido, talvez pensando no mestre, nos bonecos da Russia, na sagração das estações do trem de Cordisburgo, nos pássaros de fogo da floresta brasileira, no chapéu e no casaco, na profana trindade across the street.

E, lentamente, como se acordasse de um sonho, me disse:
- Pois é, Luiz, mas veja só, o que é que eu ia dizer a ele ?


Luiz Roberto Oliveira é músico e diretor da produtora Norte Magnético.


 

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