CLUBE DO TOM

 

 

O tempo da bossa nova

Luiz Roberto Oliveira
5.maio.2000

Publicado na revista da festa anual da APAE,
em junho de 2000


As aulas de violão que eu estava tendo com o Carlos Lyra, lá pelos idos de mil novecentos e cinquenta e tantos, eram o assunto que mais me fascinava naquela fase em que eu começava a me aproximar de uma música que nunca tinha ouvido antes.
O Lyra, compositor jovem, já com uma ou duas músicas gravadas, dono de um topete que poderia ter sido projetado por Oscar Niemeyer, era um professor falante, e cheio de novidades.

Foi assim que, logo no começo de uma daquelas aulas a que eu chegava ávido de novos acordes, a campainha tocou e apareceu um amigo dele, muito simpático, de terno e gravata preta, que logo se sentou à mesa conosco, sem cerimônia. Daí começaram os dois uma conversa animada, que eu a princípio ouvi com interesse, até perceber que havia sido completamente esquecido pelo meu professor. O papo era dos dois, e eu ali, olhando para o meu caderninho cheio de carimbos de acordes, esperando já com impaciência que o intruso se retirasse, e me desse a chance de aproveitar os poucos minutos que restavam da aula.

Ilusão. A conversa prosseguia animada, e o visitante dizia que ia participar de uma gravação de Maysa, tocando violão na orquestra. "Vai ser assim, em dó maior ", e tocou no violão um trechinho do acompanhamento do samba-canção "Ouça". Curiosamente, nunca mais me esqueci daquela seqüência de acordes simples e claros. Afinal, e tardiamente, já que meu horário de aula se esgotara, o intruso levantou-se dizendo que já estava na sua hora, despediu-se com alegria, e lá se foi. Sem pedir desculpas pela aula interrompida, o Carlos Lyra apontou para a porta que acabava de se fechar, e voltou-se para mim: "Fique de olho nesse baiano, que ele ainda vai dar o que falar. O nome dele é João Gilberto".

Naquele tempo, o samba era aquele sambão, ou samba-batucada, ou qualquer outro nome. A batida no violão começava a ser chamada de quadrada por vários músicos, mas era o que havia na época. Por outro lado, prenúncios de renovação apareciam com Garoto (Aníbal Augusto Sardinha), violonista e compositor, que fazia choros, sambões e sambas-canção (entre estes, o inesquecível "Duas Contas"), com uma harmonia diferente e avançada. Curiosamente, Garoto brindou os paulistas com o dobrado "São Paulo Quatrocentão", muito gostoso, mas que nada tinha de avançado. O cantor Dick Farney tocava um piano com extremo bom gosto e grande influência das harmonias norte-americanas. Muito do que se fazia era samba-canção, tal como Lúcio Alves - seu jeito de cantar e suas harmonias ao violão tornaram-se objeto da admiração de músicos mais jovens, em busca de uma modernidade que ainda mal se mostrava no horizonte.

Mas os primeiros sinais de uma batida diferente para o samba vieram de Johnny Alf (Alfredo José da Silva), compositor e pianista que, por suas melodias e letras, pelo jeito único de cantar, e pelas harmonias irretocáveis, atraía muitos admiradores ao Plaza e a outros bares de Copacabana. Aliás, o Plaza, onde quase sempre se ouvia boa música, era um reduto de jovens compositores e instrumentistas. Por ali apareciam Luizinho Eça, Dick Farney, Lúcio Alves, Carlos Lyra, João Donato, cantores como Dolores Duran e Tito Madi, e muitos outros. O recém-chegado baiano João Gilberto também era presença freqüente. Sentado num canto do bar, tímido, preocupado com os tostões que nem sempre conseguia ganhar, o pianista Antonio Carlos Jobim fazia hora para sua próxima entrada em algum outro bar da madrugada carioca.

Roberto Menescal era meu colega no curso colegial do Colégio Mello e Souza, em Copacabana. Já frequentava umas festinhas com o violão a tiracolo, e era o ai-Jesus das moças do pedaço. Na sala de aula ao lado da minha, distribuindo timidez e sorrisos, e com os joelhos que Deus lhe deu, Nara Leão - que gostava de receber no apartamento dos pais os jovens compositores, em reuniões onde cada um mostrava suas últimas músicas. Menescal resolveu mudar de colégio e foi para o Mallet Soares, a poucas quadras de distância e com ensino pior. Mas um motivo maior do que passar de ano sem muito esforço era o fato de poder estar próximo de Carlos Lyra, que ali estudava.

E foi neste ambiente de mar, meninas e festinhas, como se movidos por uma fôrça única, que cada um deles começou a tentar tocar o samba de uma maneira diferente. Menescal, por exemplo, um belo dia apareceu com uma novidade, uma batida no violão parecida com marcha-rancho, mas tocada sobre o ritmo de samba. Tinha swing, mas ainda não era bem aquilo.

Então, veio João. Deus sabe de onde, talvez da Bahia, trazia em si a semente do ritmo que iria viajar o mundo. A batida econômica, o violão mais conciso que só tocava algumas das semicolcheias do sambão, deixando espaço para outros instrumentos, espalhou-se, contagiou, e apareceu como uma estrela guia para um sem número de jovens compositores e músicos. O violão que João Gilberto tocou em duas faixas do LP "Canção do Amor Demais" marcou a grande mudança na música popular brasileira.

O entusiasmado Menescal saiu ao largo com seu "Barquinho", junto com Ronaldo Bôscoli; e Carlos Lyra, em parcerias com Bôscoli e Vinícius de Moraes, compôs uma série de melodias que ainda hoje acalentam os corações apaixonados do Brasil.

Mas de quem falta falar? Ah, de tanta gente! Mas este em quem vocês estão pensando, meus caros, este não era bossa nova. Era muito maior do que isto, e não cabia em um movimento, em um rótulo, nem numa nova maneira genial de tocar violão. Era universal, e sua música seria igualmente brilhante e comovente, mesmo se tivesse nascido na Conchinchina, e não fôsse um Brasileiro. Sua estrela fulgurante voou baixo por sobre a bossa nova, fêz alguns dos mais lindos sambas da estação, marcou sua inesquecível presença, e continuou seu percurso por outros estilos. O passar do tempo deixando-o cada vez mais brasileiro, transformou o desajeitado urubu num pássaro lindíssimo, colocou no céu um veleiro ("O Boto") e as coxas da mulher amada ("Two Kites"), declarou seu amor em três línguas ("Chansong"), e, acima de tudo, espalhou entre os músicos de todo o mundo uma energia e uma vontade de compor indescritíveis. Hoje e para sempre, ele vive em nossos corações e em nossa memória.

Ao maestro Antonio Carlos Jobim, saudações brasileiras.

 

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