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Lembro agora os telefonemas no final de certas tardes de certos verões de muitos anos atrás: "Venha até aqui, rápido! O dia está propício". E no estúdio envidraçado da casa do alto do Jardim Botânico estava a explicação: era dia propício para ver os micos na jaqueira, comendo jaca. E lembro também de um domingo de 1976, em outra casa, no Leblon. Perguntei a ele se sabia exatamente porque ia ao piano. Ele pensou um instante e respondeu em voz baixa: - Acho que é para não morrer, para não desaparecer, para não me transformar em um número. Para não enlouquecer, para fugir. Ficou olhando o chão, sorriu e acrescentou: - Acho também que vou ao piano para me matar. |
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Lembro os almoços preguiçosos das sextas-feiras no Plataforma, que se estenderam ao longo de nove ou dez anos, e as conversas que davam a volta ao mundo, e de repente ele disparava a recitar os parnasianos brasileiros, às vezes saltava tudo e cismava com Manuel Bandeira, sorria e dizia "Pois é, meu caro, nós, os bandeirosos..." E teve o dia que terminou uma frase, ficou olhando o teto e começou a cantar uma canção chamada Bom Tempo, e depois disse: "Que beleza!" Não sei porque lembro tudo isso agora, mas lembro também, e de repente, da surpresa de meu filho Felipe, que naquela época tinha uns doze anos, ao vê-lo explicando ao garçom, paciente e detalhadamente, como queria o espinafre batidinho à faca e depois passado na manteiga. Terminada a explicação, virou-se para Felipe e advertiu em voz séria, firme e baixa: - Olhe, Felipe. Eles adoram enrolar a gente e meter margarina em tudo. E o espinafre batidinho, você sabe, exige manteiga. |
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Lembro um andar meio desengonçado, um jeito eternamente maroto, o rosto iluminado por um ar travesso, sempre pronto para alguma frase arteira. Lembro também uma gorda e gasta bolsa de couro a tiracolo, e os charutos, e o chapéu Panamá. Lembro a capacidade incessante de criar teorias do nada, mas que eram defendidas com rigor científico. Lembro seu pavor quando alguém ou alguma coisa ameaçava seu sacrossanto direito a ficar em paz.
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Lembro que todos os sábados, por volta de uma da tarde, ele apontava na nossa mesa na Cobal do Leblon. Achava especialmente divertida a seita de todos os sábados e achava absurda a postura de todos os demais seres humanos, que em pleno sábado cometiam a incongruência de ir a um mercado público para comprar frutas e verduras quando todo mundo sabe que os mercados foram feitos para que os amigos tenham um lugar propício para beber em paz.
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Lembro as mãos, os dedos um tanto desajeitados, capazes de tocar as teclas de maneira insólita e assim bordar os acordes mais inesperados e soberanos. Juntava as notas como quem junta todas as almas brasileiras numa só melodia, que na verdade nunca foi uma: foi todas.
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Lembro, enfim e para sempre, que pouco depois do meio-dia de uma quinta-feira Fernando Morais ligou de São Paulo dizendo assim: "O Tom morreu". E que depois liguei para o Edu, para o Chico, para o Callado, e contei ao meu filho, e de repente senti que ninguém tinha absolutamente nada a dizer a ninguém, e então deixei de telefonar, escrevi isso que você acabou de ler e saí para a rua, para andar debaixo da chuva, porque era dezembro, é verdade, mas aquela quinta-feira amanheceu com cara de outono. O que não quero lembrar de jeito nenhum é que há uma fileira de sábados à minha espera. E não quero lembrar, agora nem nunca, que ninguém poderá me devolver os sábados que me restam, e que eles estão desde já mutilados, da mesma forma que mutilado está meu calendário, meu tempo, pois há uma fileira de sábados à minha espera e todos eles serão sem o Tom.
(1994)
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Eric Nepomuceno é escritor e jornalista.
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